O passado industrial paulistano é repleto de fábricas que mesmo já tendo elas fechado suas portas ou simplesmente mudado de cidade, ainda estão presentes no imaginário paulistano.

São empresas que marcaram o cotidiano da cidade com campanhas publicitárias marcantes, produtos inesquecíveis ou apenas porque estas fábricas deram emprego a milhares de paulistanos que foram de nossas famílias ou de amigos.

Em bairros como , Brás, e fábricas eram uma presença constante, com suas chaminés fumegantes e o movimento frenético de caminhões e operários.

Mas em um bairro que não era tradicionalmente fabril, a Liberdade, existiu uma fábrica que mesmo tendo fechado suas portas há quase 30 anos ainda é lembrada por todos: A Chocolate Sönksen.

A Chocolate Sönksen não nasceu exatamente na rua Vergueiro, onde ficou até encerrar suas atividades. A empresa surgiu não muito longe dali na rua Líbero Badaró, como uma pequena loja de doces em 1887, inicialmente chamada de La Bonbonniere quando o Brasil ainda vivia no regime monárquico.

A fábrica da rua Vergueiro, 310 em 1959

Fundada pelo Sr. Alfredo Richter como uma pequena casa dedicada a industrialização e comércio de produtos da “arte açucareira”, a La Bonbonniere foi sem dúvida uma das primeiras lojas de doces da cidade de São Paulo.

O casal Alfredo Richter & Alwine Sophia Sönksen

Na virada pro século XX, Richter casou-se com a senhora Alwine Sophia Sönksen, mulher de forte visão empreendedora que desde o primeiro momento da união passou a colaborar ativamente com o marido na expansão da pequena empresa em uma grande casa comercial e industrial.

Infelizmente a bela união entre Sr. Richter e a Sra. Sönksen não durou muitos anos, já que em 1904 Alfredo Richter veio a falecer.

João Faulhammer

Sozinha na liderança da companhia, Alwine Sophia Sönksen decidiu vender a empresa ao capitalista (nome que se dava aos empresários à época) João Faulhammer.

Com a empresa sob o comando de Faulhammer, teve início a construção da nova fábrica, que deixava a área mais central da cidade para a região que ficaria em definitivo, na rua Vergueiro, 310.

Naquela época o crescimento da empresa demandava um novo local, uma vez que além da loja e sede industrial na região da Sé, já havia uma filial na rua XV de Novembro.

Mesmo sob a direção de outro proprietário desde 1904, a Sönksen ainda voltaria às mãos da família de Alwine.

No ano de 1912, a empresa que pertencia a Faulhammer foi colocada à venda, e os três irmãos Sönksen puderam comprá-la novamente, formando para isso uma sociedade.

Em fotografia de 1910, a fábrica nova em construção.

Na aquisição, comprava-se a empresa e alugou-se o local onde estava a nova sede, à rua Vergueiro. A empresa passava a chamar-se Christian Sönksen & Cia. O prédio só seria comprado definitivamente em 1922.

Em 1920 ocorre outro fato curioso: A filha do antigo proprietário João Faulhammer, Anna Sophia, casa-se com Augusto Sönksen.

No ano de 1924 a empresa muda mais uma vez a razão social, desta vez para Sönksen Irmãos & Cia. A empresa, moderna desde sua formação ainda no século 19, sempre teve a participação ativa de mulheres na administração, agora com Anna Sophia Sönksen e Joana Helena Sönksen, esposas respectivamente de Augusto e Christian Sönksen.

A empresa seguiria seu crescimento vertiginoso, perpetuando sua marca e o sabor inigualável de seus chocolates e balas. Em 1948, tornou-se Sociedade Anônima.

POR DENTRO DA SÖNKSEN:

Mas como era a fábrica de chocolates por dentro ? Como era a produção de chocolates e bala ? E o cotidiano dos funcionários ?

Através de fotografias inéditas, a galeria abaixo mostra ao leitor como era o dia a dia da Sönksen. Uma viagem no tempo, através de 22 fotografias (clique para ampliar):







LOJAS SÖNKSEN, UM COSTUME QUE VEM DO SÉCULO 19:

Quando iniciou suas atividades no século 19, a empresa começou com uma pequena loja onde vendia os produtos que produzia na Rua Libero Badaró.

Com o passar dos anos a empresa expandiu-se e mudou sua sede para a Rua Direita, 43. Até que para atender a demanda, abriu sua segunda loja já mencionada acima, na Rua 15 de novembro.

À medida que o tempo foi passando, a Sönksen abriu outras lojas da marca por São Paulo e também em outras cidades que eram verdadeiros pontos de peregrinação para os amantes do bom chocolate.

Suas lojas mais concorridas e que estavam sempre abarrotadas de produtos e clientes eram as da Rua Augusta 2310, Avenida São João 223, Rua 24 Maio, 29 (no Edifício Palácio do Comércio) e a concorrida loja de Santo André na Rua Coronel Oliveira Lima, 433.

Esse conceito de sucesso de lojas próprias é seguido à risca até hoje por outros fabricantes de chocolate, como Ofner, Kopenhagen e Cacau Show entre tantos outros.

Na galeria abaixo, veja como eram algumas das lojas da Sönksen (clique para ampliar):


CHOCOLATES E DOCES INESQUECÍVEIS:

A qualidade dos chocolates e dos demais produtos fabricados pela Sönksen eram inesquecíveis.

Até hoje costumamos ver pessoas se lembrarem dos famosos chocolates produzidos pela marca com um misto de saudade e nostalgia.

Desde as barras de chocolate simples aos famosos bombons finos vendidos em embalagens luxuosas, com imagens de históricos paulistas ou de belos locais do Brasil, aos famosos bombons Alpino, de sabor único.

Embalagem de um dos chocolates da Sönksen

Sem esquecer também dos deliciosos confeitos de conhaque, dragés, lingua de gato e os famosos Urso Branco e Urso Marron.

As balas vendidas em latinhas também eram muito saborosas. Até hoje estas latinhas são vendidas em antiquários e feiras de antiguidades.

Lembra-se de toda a linha da Sönksen ? Na galeria a seguir, uma série de imagens de alguns dos produtos mais conhecidos da fábrica (clique para ampliar):




O FIM:

Os anos 1970 foram decisivos para muitas fábricas estabelecidas na cidade de São Paulo. Nesta época muitas empresas começaram a mudar da capital paulista, rumo a outros municípios com incentivos fiscais mais atraentes.

Enquanto isso, outras indústrias iniciaram um período de declínio do qual não conseguiriam se recuperar. A Sönksen foi uma destas que entraram em dificuldades.

 

As razões para a decadência e o fim da Sönksen são várias. Há relatos de que os herdeiros não tinham interesse em prosseguir no mercado, enquanto outros relatos indicam que a compra em plena década de 1970 de um moderno sistema de computadores para a informatização da fábrica teria causados danos irreversíveis na contabilidade da companhia.

No final desta mesma década, quando a empresa já estava muito mal, alegava-se que o sistema de vendas da empresa pelo país afora era muito deficitário, com apenas três vendedores em todo o estado de São Paulo e uma distribuidora no Rio de Janeiro, para colocar no mercado uma enorme produção de 25 toneladas de produtos.

O mais provável é que a soma de todos estes fatores tenham em conjunto contribuído para o fim da empresa.

Garoto diante de linha de produtos Sönksen

Em 1977, no auge da crise,  já não havia um Sönksen no comando. Influenciado por um dos diretores da empresa que era seu amigo, o dono de uma das maiores concorrentes da Sönksen, a Casa Falchi,  decidiu assumir o passivo da concorrente, cujos bens estavam prestes a ir a leilão.

Os problemas que todos pensavam que poderiam estar acabando, na verdade continuariam. À frente da Falchi, ele não conseguia tocar a empresa como se propunha salvar e optou então por nomear se filho, chamado José Clibas de Oliveira e Silva Filho para assumir a presidência da Sönksen.

Como não era do ramo de chocolates, inicialmente Clibas Filho veio como uma espécie de interventor, seguindo sugestões de seu pai. Aos poucos, foi tomando conta do negócio.

José Clibas

Uma curiosidade: os donos da Doceria Ofner chegaram ser acionistas e membros da diretoria da Sönksen até pouco antes de Clibas Filho assumir.

A vasta linha de produtos da Sönksen foi reduzida. Mesmo assim, permanecia com cerca de 150 produtos e detendo cerca de 30% do mercado brasileiro de chocolates.

No entanto, nem isso foi suficiente para salvar a empresa. Juntas, Falchi & Sönksen, caminharam de mãos dadas para o fim. Em setembro de 1983, a primeira fábrica de chocolates de São Paulo de tanta história e tradição requeria sua falência.

Segundo seu então acionista majoritário, Peter Schone (60% das ações), a má situação financeira da empresa era resultado das altas taxas de juros e da impossibilidade de repassar seus custos, em especial matérias-prima.

Foi o fim da linha para a Chocolates Sönsken.

Agradecimentos: Christiano Sonksen

Artigo revisado e atualizado em 25/05/2018

Bibliografia consultada:

  • Acervo fotográfico Sönksen doado ao São Paulo Antiga
  • Correio Paulistano – Edição de 19/12/1920
  • Correio Paulistano – Edição de 14/02/1925
  • Correio Paulistano – Edição de 27/09/1927
  • Correio Paulistano – Edição de 13/12/1934